A Barca do Sol & Olívia Byington – Corra o Risco 1978

A Barca do Sol & Olívia Byington – Corra o Risco 1978

A Barca do Sol iniciou a carreira como banda de apoio do cantor fluminense Pery Reis. Em 1973, seus integrantes lançaram-se em carreira própria. No ano seguinte, a banda lançou seu primeiro álbum, A Barca do Sol, que contou com a participação do compositor e multi-instrumentista Egberto Gismonti. Também em 1974, entrou para o grupo o então flautista Ritchie que anos mais tarde se notabilizaria em sua carreira de cantor solo.

Após uma participação em um especial para a TVE-RJ, A Barca do Sol começou a se tornar conhecida do público. Em 1976, o segundo disco é lançado, intitulado Durante o Verão. Nesta época, há uma alteração na formação da banda: saem Marcos Stull e Marcelo Bernardes e entram Alain Pierre e David Ganc, respectivamente. Em suas apresentações, o grupo utilizava textos de poetas da chamada “Geração Marginal”, particularmente de Geraldo Carneiro, Cacaso e João Carlos Pádua.

Em 1978, os integrantes de A Barca do Sol participam do LP Corra o Risco, que marcou a estreia da cantora Olivia Byington. E é aí que nosso Jardim Elétrico vai florescer na obra.

Este disco d’A Barca do Sol e Olívia Byington já esteve por aqui, na coluna Discos Escondidos (clique aqui para ler). Senti-me na obrigação de resenha-lo por ser uma obra magnífica e, na minha modesta opinião, o melhor trabalho da banda.

Vamos lá?!

O disco é um progressivo que vai da mais calmaria ao peso em um estalo de dedos. As letras, ora reflexivas ora abstratas, dá o toque para destacar a voz. Flautas e violão folk, com coro, dão o medieval ao tema. Um disco e tanto.

Abrindo com “Fantasma da Ópera”, o violão folk e a flauta tomam conta, depois para a voz, bela e suave de Olívia entra para destacar na música para então, ao final da canção, se tornar mais agressiva.

Em seguida a música que estourou e a levou ao reconhecimento nacional, “Lady Jane”, uma melancólica poesia de Nando e Geraldo Carneiro. Destaque para a altura da tonalidade de Olívia neste som. Que voz…

“Corra Risco”, que dá nome ao disco, é acompanhada com belo arranjo de cordas, flauta e percussão em uma música totalmente acústica.  A letra é magnífica, enigmática. A voz, sutil e delicada dá o tom para falar sobre pesadelo. É de arrepiar. “Você estremece mas fica mudo de horror e treme de pavor…” O solo de cordas é sensacional nesta música.

Em “Jardim de Infância” a música vem mais reflexiva, com um órgão fritando ao fundo, com um jogo de palavras bem interessante. Mas é em “Banda dos Corações Solitários” que a banda chega ao seu ápice do disco. Um dedilhado simplesmente lindo de início, e Olívia entra cantando com um agudo extremo, no limite dos copos a quebrar. “Cruz de honra, da famosa e brava banda dos corações solitários, hoje zombo dos seus sonhos, das canções sonhadas. Embora hoje ainda, já lhe ouvindo suas baladas e anéis… E guardando a ilusão de um certo verão de anos atrás.” É de chorar!

O disco segue com “Cavalo Marinho”, uma letra com apenas uma estrofe. Sim, na simplicidade que vem o mais rico dos tesouros. A agonia da voz, a sutileza (tô usando muito essa palavra né? Mas não consigo encontrar outra característica para sua voz, desculpem).

“É como se não houvesse solidão, talvez como eu costumava fazer anos atrás. Eles só falam no lobo do mar, só cantam só dançam o lobo do mar”… É assim, de maneira melancólica que inicia a música “Lobo do Mar”. Vou ser repetitivo. QUE VOZ! Esta música teve o clip lançado no Fantástico do mesmo ano.

O disco vai para um lado mais calmo, com “Água e Vinho”, de Egberto Gismonti e Geraldo Carneiro. Bem minimalista, simples e melancólica. A música que segue é “Brilho da Noite”, um lado bem progressivo psicodélico. Olívia vai ao extremo de sua voz, do grave ao agudo como se brincasse de Lego. A bateria é totalmente quebrada e a guitarra sola o tempo todo.

“Minha Pena Minha Dor” é um lamento de piano e voz para dar o ar mais triste ao disco. Para fechar a grande obra, “Luz do Tango” que, na minha opinião, é a melhor do disco. Uma música nervosa, percebe-se pela voz de Olívia que, neste momento lembra um pouco a de Ney Matogrosso. Com doses pesadas de rock psicodélico, a música fecha o disco na nossa orelha como um monstro derrubando tudo no caminho. Não dá para ser o mesmo depois disso. A quebrada de tempo, de bateria e arranjos faz com que fiquemos impressionados com a capacidade da banda.

Um disco que deve ser lavado para uma ilha deserta, certamente. Duvida? Então bote o disco pra rolar e corra o risco…

Para acompanhar um disco como esse, não poderia ser uma cerveja qualquer. Escolhi a Badger Blandford Flyer, uma cerveja bem complexa, com gosto marcante de gengibre e fruta. Não vai reconhecer no primeiro gole, mas ao beber, o adocicado vai tornando o saber do amargor mais complexo. Deliciosamente caótica.

Um brinde!

 

 

 

 

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Pedro Cindio - Jornalista narigudo, músico frustrado e apaixonado por música, tenho um toc de só escutar discos completos. Cervejetariano e feio, mas meu humor salva a aparência.