Chico Science: 20 anos sem o caranguejo elétrico

Chico Science: 20 anos sem o caranguejo elétrico

“Brasileiros da América, boa noite”

Óculos escuros. Chapéu pequeno. Voz rápida. Certeira. Trejeitos elétricos. Quadril de maracatu. Um imperador da melodia dos mangues. Eis a revolução dos caranguejos com cérebro. Da lama ao caos. Do caos à lama. Brasileiros da América, boa noite. Eis que surge da plataforma rude das almas sem voz, um sopro de mudança regado ao batuque da orquestra de cocos. Francisco de Assis França Caldas Brandão. A entidade Science.

“Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.”

Chico Science

Recife. Anos 90. O desejo de desinfartar a cidade. De misturar elementos impossíveis. A tensão tecnológica. Ficção científica? O artesanato sem limites dos mangueboys. Artifícios produzidos na ausência de tudo. A história da Nação é, pois, a história dos primeiros grandes passos da música independente no Brasil. História que ganhou o mundo. Chico se refaz aqui, no terraço da modernidade líquida. E tudo se refaz, então, após a batida do primeiro tambor no vácuo infernal das esquinas do velho Pernambuco. Salve Lenine. Salve Cordel do Fogo Encantado. Salve todos os habitantes da nova selva.

“Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown.”

20 anos. A Nação ainda pulsa. No coração do mangue. Na melodia dos becos. Na sola do tênis surrado da juventude que mete o pé na porta e arrebenta as fronteiras do mundo. Estamos aqui, olhe pra gente. Viva Zapata. Viva Sandino. Viva Zumbi. Antônio Conselheiro. Todos os panteras negras. Chico Science, sua imagem e semelhança. Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia.

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Escritor, compositor, produtor cultural e geminiano. Prefere orquestrar silêncios que causar barulho. É fã das canções que só são absorvidas usando fone de ouvido num lugar isolado.

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