Entrevista: Phillip Long e seu folk anarco-rural

Entrevista: Phillip Long e seu folk anarco-rural

Phillip Long é um compositor dedicado. Com 10 discos em seis anos de carreira, o cantor encontra-se agora em um período de mudanças após Cat Days(2016), provavelmente seu último trabalho em inglês. Entre as novidades, está justamente o fato de seu novo trabalho ser inteiramente em português.  Como motivos que o guiaram a essa nova fase Phillip cita seu amadurecimento como compositor e também vontade de facilitar o caminho da mensagem. “Eu queria ser mais claro e direto, queria que todo mundo entendesse o que eu estava dizendo”. Manifesto de uma Pequenina Vida, como foi batizado, foi definido pelo compositor como um disco anarco-rural, que entre suas temáticas fala da vontade de fugir pro mato em busca das coisas verdadeiramente importantes.

Para lançar o projeto, Phillip conta pela primeira vez com o sistema de crowdfunding e a colaboração de seu público(confira aqui a campanha no Catarse). Antes trabalhando em parceria com um produtor, o cantor agora encontra-se “por conta e risco” e viu no financiamento coletivo uma forma de incluir seus fãs no processo de dar vida ao disco. Phillip também montou uma banda com Rafael Elfe, Felipe Pizzutiello e Mateus Rahal Sala Polati, com quem entrará em estúdio em dezembro. “Desde o ínicio um disco de muitas mãos”, como conta, é com esses músicos que o cantor vem criando os arranjos que estarão presentes no novo álbum.

Após experimentar outras linguagens, podemos esperar de Phillip Long um foco maior em seu violão e no folk em Manifesto de Uma Pequenina Vida. Além disso, Phillip diz ter se preocupado bastante com as letras e com sua importância dentro desse trabalho. Muito influenciado por Belchior e tendo Alucinação como uma das obras mais importantes de sua vida, ele conta que o novo disco terá muito da obra do cantor cearense no que diz ao esforço de manter a simplicidade e do ofício de compor. “Estamos muito interessados em proteger esse ofício da canção, da letra, que é  algo que sinto que se perdeu de uns tempos pra cá.”

Conversei um pouco com o Phillip sobre o novo disco, financiamento coletivo, Belchior, novos compositores e Facebook. Esse papo você confere abaixo pode aproveitar para ouvir a playlist criada com algumas canções e artistas que surgiram na entrevista. Para conhecer o trabalho completo dele é só acessar esse link.

Vamos começar falando do disco novo em que você optou pelo crowdfunding pra viabilizar o projeto. Por que escolheu esse formato?

Porque dessa vez estou por minha conta e risco. eu sentia que precisava mudar todas as direções de minha música e ter mais controle do processo todo, sabe? Antes eu trabalhava em parceria com um amigo na produção e tinha o privilégio de poder gravar na faixa, isso me ensinou muito sobre como escrever canções. Foi um aprendizado intensivo. Agora que estou por conta própria preciso da ajuda das pessoas para poder entrar em estúdio. É uma questão de necessidade mesmo.

A decisão do disco ser o primeiro todo em português tem um pouco a ver com isso? A ideia é estar mais diretamente conectado com seu público?

É  o lance de que eu já  fiz o bastante em inglês. E depois de um tempo eu fui sentindo que isso dificultava demais a mensagem. Eu queria ser mais claro e direto, queria que todo mundo entendesse o que eu estava dizendo. E eu passei um tempo enorme aprendendo a me comunicar em português, digo, nessa coisa de cantar, sabe? Eu aprendi por onde caminhar.

E nesse aprendizado você já tem uma ideia dos caminhos desse novo disco? Qual a temática e o que quer trazer tanto nas letras quanto nas melodias?

É  um disco de total ruptura e de letras. De letras porque essa foi a minha maior preocupação nesse processo. Eu considero um disco com um viés anarco-rural, basicamente sobre meter o pé  nisso tudo que a gente construiu para viver de um jeito melhor, ter paz de espírito. Falo de disco mas são canções que podem virar um disco, obviamente. Isso depende de conseguirmos captar os recursos ou não. Eu acho que fiquei muito tempo explorando linguagens pra no fim desaguar de novo no folk, que foi quem me trouxe ao mundo. Eu montei uma banda com o Rafael Elfe, com o Mateus e o Pizzu. Uma banda direta, sabe?  Estamos muito interessados em proteger esse ofício da canção, da letra, que é  algo que sinto que se perdeu de uns tempos pra cá. Nossa música é  rasa e não fala sobre as questões de nossa geração. Eu tô  chegando aos trinta e quero falar sobre o que a gente sente. O medo e as incertezas todas, a vontade de fugir pro mato. É um disco anti capital, basicamente

Pegando essa ideia como ponte, você disse se o disco sair você esta pensando em fugir pro nordeste, encontrar Belchior, Raul, Almir Sater. Você acha que falta essa simplicidade que você busca nas composições contemporâneas? É um resgate que você busca fazer?

Sim, sinto que falta a simplicidade grandiosa do ofício de compor, sabe? Todos esses que citei falam sobre a gente. É um ofício em extinção. Canções que nos orientam, que nos norteiam, que contam a nossa história. Eu busco manter essa tradição viva.

Desses citados o Belchior é o aniversariante do dia e você tem falado bastante dele nas suas postagens recentes. Sua admiração por ele é evidente e você chegou a participar do tributo Ainda Somos os Mesmos. O que o torna tão simbólico pra você como artista?

Para mim Belchior é  o maior compositor que já caminhou por essas terras. É simples, direto e violento. A compreensão dele sobre a gente, sobre nossa sociedade, sobre o sistema que nos empurra pra baixo é  um absurdo. O ‘Alucinação’ é  uma pedra fundamental pra mim, meu norte na vida. Poucos artistas fizeram algo tão profundo na música brasileira, tão significativo. Aquilo é um manual para todo mundo. Nesse disco de agora tem muito dele.

Dos compositores atuais, tem alguém que você acompanha de perto? Quais são suas referências “atuais”?

Eu ouço muito os trabalhos do Rafael Elfe e do Igor de Carvalho. Acho os dois letristas absurdos. E tem esse menino, muito novinho ainda, chamado Lino, tem muito coração. Eu gosto de ouvir outsiders, eles precisam ser algo maior do que uma imagem.

O que te atrai no trabalho deles?

Verdade, música em primeiro plano. Essas são coisas raras no mundo de agora. O artista moderno tem mais imagem do que música.

Mudando um pouco de assunto. Você parece alguém bastante ativo nas redes sociais. Suas músicas estão todas disponíveis online. Qual sua relação com o digital?

Eu tenho uma ótima relação com as redes sociais. Eu sou um artista underground, e ser underground é  diferente disso que se convencionou chamar de independente. Eu dependo demais das pessoas. Essa é  a única forma de encaminhar minha mensagem, então acho que vou bem nessa coisa de me comunicar por esses portais.

Pra encerrar, quais os últimos 3 discos que você ouviu

Ouvi o ‘Write About Love’ do Belle and Sebastian, o ‘Nashville Skyline’ do Dylan e ‘Alucinação’ do Belchior.

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Também é colaborador do Showlivre, trabalhou como assessor de imprensa de artistas, bandas e casas de show. Movido a boa música, café quente e cerveja gelada, segue na busca de novos sons para descobrir e clássicos para recordar.