Entrevista: Rodrigo Miguez

Entrevista: Rodrigo Miguez

Rodrigo Miguez é um cara que aposta diferente. Enquanto o mundo dos compositores se foca no amor e no cotidiano como suas maiores referencias nas letras, o músico carioca prefere apostar em questionamentos sobre a vida, numa imersão filosófica inesperada. Apesar do foco diferenciado em suas palavras, magicamente Rodrigo consegue transformar suas canções em um material simples, de fácil entendimento e que tranquilamente pode ser ouvido e colocado ao lado de trabalhos do Lenine, Paulinho Moska e alguns outros compositores que gostam de acrescentar elementos além do básico em suas canções.

Recentemente, Miguez disponibilizou Negativo, seu segundo disco. O trabalho foi composto pelo próprio músico e arranjado por ele e amigos em seu próprio estúdio, onde registrou o disco em um clima de amizade e tranquilidade. O trabalho está disponível para download no site oficial do músico sucede Passo Pra Trás, de 2013. Leia abaixo nossa entrevista com Rodrigo Miguez.

De onde começou esse seu flerte com a filosofia?

Começou no ensino fundamental, no Colégio Pedro II, quando essa disciplina se tornou parte da grade escolar. Foi uma grata surpresa, pois eu não era um aluno muito aplicado, mas fiquei fascinado com as primeiras leituras, de Platão a Descartes, e isso me motivou a buscar conhecer mais, além de ter me levado a escrever sobre assuntos que antes eu sequer pensava.

Porque se questionar tanto assim como você fez em Negativo?

Acredito que hoje tudo que vivenciamos e interpretamos como normal, não é normal ao acaso. Todas as coisas que aceitamos com naturalidade tiveram uma construção histórica que, em muitos casos, tem fundamentos sólidos, em muitos outros, não. Por exemplo, a escravidão era fundamentada na crença da inferioridade do negro perante o branco, uma arbitrariedade que por séculos foi aceita com naturalidade por diversas sociedades, até ser questionada…

Por observar muitas coisas que não consigo aceitar com naturalidade, acredito que o caminho seja questionar.

Há um medo de não ser entendido ou soar complexo demais?

Pelo contrário… Tento manter a simplicidade nos textos e clareza na forma de me expressar,  pois a ideia é exatamente ser acessível ao máximo de pessoas possível. Como diz meu amigo Daniel Toco: “A simplicidade é a verdade que o requinte quis velar”.

Em meio a tantos questionamentos, que respostas a composição deste disco lhe trouxe?

Não sou religioso, mas sempre acreditei muito na força da palavra, pois mudei muitos comportamentos graças a coisas que li ou ouvi. O disco tem o propósito pessoal (ainda não alcançado plenamente) de alinhar meus pensamentos e minha prática, como em Hamlet “Ajuste o gesto à palavra, a palavra ao gesto”.  Acho que esse é uma das tarefas mais difíceis para a humanidade, mas fundamental para a prosperidade.

Além disso, uma revelação importante é de que agregar pessoas torna tudo melhor, apesar de mais complexo. Cada pedaço do trabalho partiu da coletividade, algumas vezes de forma subjetiva, mas outras vezes de forma bem objetiva, como em escambos de serviços que fiz e faço até hoje.

Qual a ideia da arte gráfica dentro do trabalho e porque a predominância da cor vermelha?

A arte gráfica, que fica por conta do meu amigo Zéca Vieira, usa o recurso de dupla exposição,  pois o disco  trata de assuntos que estão dentro de mim, mas que são muito maiores do que eu. Ele conseguiu mesclar imagens minhas com imagens representativas desses assuntos de uma forma que eu achei impactante e bem bonita também. O vermelho começou com a ideia do “quarto escuro”, de revelação da fotografia analógica, que aliás, explica parcialmente o título do disco, mas em seguida algumas pessoas me falaram que remetia a sangue e eu fiquei feliz! Colocamos o sangue nesse trabalho.

As influencias do disco parecem ser muito distintas, ao mesmo tempo coesas, como conseguir essa união?

Recebo essa pergunta como um elogio! São realmente muitas influências, tanto musicais quanto não musicais. Nas letras, acho que existe uma coerência por todas tratarem de questões amplas, apesar de serem muito pessoais. No som, não pensamos muito em manter esse alinhamento entre as músicas, fomos fazendo o melhor possível para cada música, e acho que a coesão veio por outros motivos… Talvez por conta do envolvimento das pessoas que mais participaram, talvez também por questões técnicas, como o fato de ter sido gravado todo no mesmo espaço.

Apesar de ter estudado e composto um coral não há muitas vozes no disco, o que é interessante.

De fato, o disco tem poucos arranjos vocais, e isso foi natural, não programamos. Onde sentimos alguma necessidade mais evidente gravamos algumas aberturas… Mas tem também vocalizes de ambiência, coro, participações cantadas. Confesso que fiquei até com vontade de colocar mais vozes no disco agora, rs.

Qual o porquê dessa mudança entre a sonoridade do seu primeiro disco para este novo?

Acho que os dois discos até guardam algumas similaridades na sonoridade, por exemplo, ambos exploram a diversidade percussiva não se restringem a um só estilo. Mas, reconheço também diferenças profundas, como o papel das guitarras e as experimentações eletrônicas.

Os arranjos de Negativo são frutos de pesquisas, experimentações em ensaios e ideias de amigos, respeitando sempre nossos limites de recursos. Acho que essa é a grande diferença pro Passo pra Trás, que não teve pré-produção e foi quase todo gravado com músicos contratados.

Qual a ideia por trás do coletivo MIRA?

MIRA é uma sigla pra Música, Inspiração, Relação e Arte, e na prática significa a união de artistas e bandas cansados de reclamar das dificuldades da cena. Um pessoal que compartilha uma necessidade muito grande de fazer e difundir arte, aceitando e usufruindo da nossa interdependência.

Nossa amizade foi crescendo junto com o desenvolvimento do coletivo, e hoje somos um grupo de amigos que segue essa jornada na arte de forma colaborativa.  Produzimos eventos, vídeos, artes gráficas e o que mais for preciso para estamos sempre ativos no cenário do RJ.

Há formas de aplicar conceitos que você estudou em Economia no gerenciamento de uma carreira ou composição de uma música?

Com certeza! No gerenciamento da carreira uso muito da objetividade e organização que aprendi no mercado de trabalho. Na composição, duas frases que me marcaram durante o curso de economia são grandes motores da minha forma de compor. A primeira delas é a definição do estudo de economia, que poucos conhecem: “Economia é a ciência humana que estuda a alocação ótima dos recursos”. Graças e essa frase, observo com muita clareza que o papel humano da ciência econômica ainda não foi cumprido: os recursos não são alocados de forma ótima! E a segunda frase é a que me ajuda a permanecer acreditando nas possibilidades de transformação da realidade: “Não importa quantas constantes existem na equação… No longo prazo, tudo é variável”.

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Estuda música desde os 13 anos, desenvolve pesquisa na área da música independente , produtor de bandas de diversos estilos e compositor de trilhas sonoras.

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