A força das flores de Phillip Long e sua geração distante

A força das flores de Phillip Long e sua geração distante

Em 1982, um escritor tímido e introspectivo fazia sua estreia como vocalista de uma banda de rock, aquela que, ao lado dos Beatles, se tornaria a maior banda inglesa de todos os tempos. Para a surpresa do mundo, a banda encerrou suas atividades ainda nos anos 80. Um meteoro devastador que ganha força na corrida e explode deixando estragos infinitos no universo. Estou aqui para falar dos estragos, de um pequeno caco desse corpo celeste que se alojou no coração de um jovem do interior de São Paulo, tímido e sem tato para o mundo moderno. Um jovem que o que tem de força produtiva tem de fragilidade para a vida.

“Frágeis como flores”. É assim que ele define a juventude. É assim que fala de ouvir a mesma música e comer no mesmo prato e de que temos tanto medo, tanto medo, ainda que ao lado de alguém que preste atenção. Talvez. Talvez aqueles sonhos sessentistas de cair na estrada e ser feliz por uma noite efêmera sejam a eterna tônica de uma juventude sempre ávida pelo que rui. Como amar a chuva depois que ela passa ou o café que esfriou, como todas as coisas que não se conectam mais. Talvez um deus pagão na fronteira com seus Maias. Talvez uma criança na trincheira com seus legos. Todos frágeis como flores.

Phillip Long abre um vinho e chama a solidão pra sentar. Em seu diálogo introspectivo, recusa deslizar os dedos em touch na pele da modernidade. É um mundo muito difícil pra quem escreveu A noite não é de ninguém, impossível pra quem compôs As horas. Vejo, do céu dos excluídos, as nuvens pesadas formarem um arco em volta de um não sei quem qualquer um retorcido numa frágil madeira fincada ao chão. Sobre esse incrível trabalho de capa, a artista Mayara Nardo nos explica um pouco da concepção:

“Conheci o Phil faz pouco tempo por causa do meu namorado que também é músico, o Rafael Elfe. Conversando com ele, percebi que tínhamos um pensamento bastante alinhado, e pra criar uma ilustração, principalmente de um disco, é muito importante você conhecer a pessoa com quem está trabalhando, isso dá uma liberdade maior.

Quando ele veio com o convite, foi muito natural. Pedi pra que explicasse um pouco sobre a ideia do álbum e pensando na ideia do título “Frágeis como flores”, me veio a imagem de uma escultura do Rodin, que vi no Museu dele na França. Uma imagem de um corpo todo contorcido, meio lembrando um sentimento de dor, mas também de libertação, uma imagem muito forte simbolicamente. E acabei encaixando essa ideia com o conceito do nascimento de uma planta e também de uma plantação

O simbolismo da terra também é muito importante pra mim, e pra complementar a ideia do frágeis, coloquei uma estaca, dessas que servem de sustentação pro crescimento de certas plantas”.

Se daqui há vintes anos alguém fizer uma análise mais minuciosa, vai dizer que este disco é o “The Queen is dead” brasileiro. Mas, eu discordarei. Sempre discordo de comparações pontuais, por mais bem-intencionadas que sejam. Phill bebeu de tantas fontes que se embriagou de mundo a ponto de perder o próprio eixo de sustentação. Frágil, tênue, entregue, como quem desliza pra perto e espera um corpo lhe aquecer.

É de nossa geração distante que Phillip fala. A mesma juventude frágil que busca, a todo instante, uma fuga, um ponto de chegada, uma picada no meio da noite ou um carro a cem por hora na autoestrada em direção a nada. É do jovem entre artifícios de bolso inflamado por seu confuso coração selvagem e que, por ser véu, impede que haja flores o tempo todo.

1 – Phillip, estamos diante do trabalho mais aguardado da sua carreira por você e pelos fãs? Aquele ponto de virada? Aquela lugar que faltava chegar? Pergunto isso porque acompanhei de perto a expectativa nas redes e ela foi bem intensa.

Acho que as pessoas aguardavam mais por ser o primeiro disco cheio em português, era uma coisa que muita gente esperava desde o Sobre Estar Vivo, então criou essa expectativa. Para mim significa sim um ponto de virada ou um fim de ciclo porque venho trabalhando no apuramento dessa estética que rodeia os anos oitenta desde o Seven e culminou aqui, onde creio que cheguei mais perto do que eu buscava sonoramente. É o ápice dessa estética em que me dediquei nos últimos anos.

2 – É nítida a influência de seus ídolos e posso citar três antes de te perguntar só de ouvir a sonoridade: Renato Russo, Morrissey e Ian Curtis (Me corrija se eu errei algum). Quais outras influências circundam o universo do Frágeis?

Não errou não. O caldo de referências passa por aí mesmo, muito do post punk e do britpop inglês, do que aconteceu com o grande levante do rock brasuca nos anos oitenta. Eu enfiaria U2 na fase Joshua Tree também no que você deixou de citar.

3 – Fala um pouco da faixa título. Ela fala de fragilidade e juventude, É linda e me lembra os tempos áureos dos anos 80 e do BRock. 

Essa canção tem aquela aura messiânica do BRock mesmo. É uma canção sobre geração e sobre crescer num mundo que nos empurra pra baixo o tempo todo e como é difícil aprender a se equilibrar dentro disso tudo. Eu considero a letra a melhor acabada da minha carreira até aqui, trabalhei muito tempo nela.

4 – Quem são os melhores compositores dessa nova geração, Phill? 

Olha, Ithalo. Eu sou um tanto cético com o nosso tempo, eu acho que a imagem tem sido o norte de muita gente então é difícil responder essa pergunta. Há alguns compositores que eu considero uma luz no meio disso tudo, o Lucas Vasconcellos é um deles, e tem esse menino que tem trabalhado bastante em musicas, ele se chama Lino, acho que é um menino movido pela paixão e que isso vai dar muitos frutos. Gosto muito do trabalho do Tiberio e do Igor de Carvalho, acho extremamente poético e acho uma pena que não tenham um projeção maior. Outro cara que admiro é o Rafael Elfe, grande compositor.

5 – Vi você traçando um paralelo de diferenças entre seus dois trabalhos em Português: “Sobre estar vivo” e o “Frágeis como Flores”. Fala pras pessoas sobre essas peculiaridades.

O Frágeis não é o sucessor do Sobre Estar Vivo. O Sobre Estar Vivo é um momento, o Frágeis outro. Naquela temporada eu estava sentado com Buda trocando uma ideia, depois acabei brigando com ele. Um possível sucessor do Sobre Estar Vivo é o Manifesto porque foi quando me engracei por Buda de novo. O Frágeis é como disse lá em cima, é o ápice de um trabalho estético que iniciei lá em 2013 com o Seven. E agora eu volto ao início, com o folk do Manifesto, porém um folk mais engajado e em português.

6 – O que esperar do “Manifesto de uma Pequenina Vida”, seu próximo trabalho? 

Acho que as pessoas podem esperar um disco sensível, mais modesto em arranjos e estrutura, mais simples e direto e muito sensível. Sinto que algumas das minhas melhores letras estarão no Manifesto.

7 – Qual sua visão de mundo, Phill? Principalmente esse mundo líquido e conectado de hoje. Como você se relaciona com tudo isso?

Horrível e assustadora. Eu definitivamente não sou desse mundo de agora, eu sou de outra geração e tô sempre pegando a contramão disso tudo. Acho que estamos todos encrencados, resta saber onde isso tudo vai dar.

8 – Há algum projeto de turnê já em curso para o disco? O que teus fãs podem esperar como desdobramento desse trabalho tão aguardado?

Há sim um projeto de levar esse disco aos palcos, que foi uma coisa meio que negligenciada até aqui na minha carreira. Eu passei mais tempo em estúdio do que nos palcos e sinto falta disso, desse contato mais fino com o público. Em breve a gente deve anunciar algumas apresentações.

“Queremos ser íntimos e dançar a mesma música
dormir na mesma cama e dividir o mesmo prato
descansar o coração”

 

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Escritor, compositor, produtor cultural e geminiano. Prefere orquestrar silêncios que causar barulho. É fã das canções que só são absorvidas usando fone de ouvido num lugar isolado.

Comments

  1. Comparar esse disco do Phillip Long com “The Queen is dead” foi uma forçada de barra monstra, hein…menos…se o Morrisey lê uma coisa dessas é capaz de se jogar da ponte…