Nara Leão – Vento de Maio – 1967

Nara Leão – Vento de Maio – 1967

Escrever sobre Nara Leão emociona. Particularmente suas músicas me comovem, me transferindo para outra atmosfera.

Nara nos deixou cedo, aos 47 anos em 1989, porém sua obra já estava imortalizada. Também pudera, começou cedo, ainda criança, nas aulas de violão com Solon Ayala, ex-integrante da banda “Os Oito Batutas”, que acompanhava Pixinguinha. Aos 14 anos foi estudar na academia de Carlos Lyra e aos 18 já mestrava aulas de música.

A estreia profissional se deu quando da participação, ao lado de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra, na comédia Pobre Menina Rica (1963). O título de musa da Bossa Nova foi a ela creditado pelo cronista Sérgio Porto. Mas a consagração efetiva ocorre após o golpe militar de 1964, com a apresentação do espetáculo Opinião, ao lado de João do Vale e Zé Keti, um espetáculo de crítica social à dura repressão imposta pelo regime militar.

Em 64, Nara lança seu primeiro disco, Nara, seguido no mesmo ano pelo álbum Opinião de Nara. Disco este que teve problemas com o início da censura no Brasil.

Tem um texto ótimo, de Chico Buarque, que transcrevo aqui, sobre Nara.

A primeira vez que vi Nara Leão achei que ela era a Musa, minha e da bossa nova. Depois, Nara foi se desmusando, se desmusando… Cortou curto os cabelos, meteu uns blue-jeans e saiu por aí. Mais romântica, menos intimista, gritou umas verdades no teatro. As verdades ficaram no teatro e Nara foi para a televisão. Levava a sua verdade e a música brasileira para o grande público.

Seus LPs documentam perfeitamente estes cinco útimos anos da nossa música. Com sua aguda e frágil, a pequenina Nara carregou nas costas um barquinho, um violão, um carcará, uma rosa, um trem, uma tuba e um circo inteiro. É natural que conheça, enfim, o peso das coisas que diz. Nara não se ilude: por mais fé que ponha em sue canto, não espera remover monatanhas. Isso lhe dá às vezes aquele ar de desencanto, quase beirando a displicência. É quando nasce um samba, um novo alento, uma esperança… E, para tanto, ela é uma menina. Saia curta, perna grossa e tudo.

Aquio está ela de volta. Porque é consciente na escolha do seu repertório; porque é corajosa na hora das verdades, porque é imagem de mulher independente… Atribua seu sucesso ao que bem entender, porém uma coisa é certa: Nara canta brasileiro, canta o que é bem nosso. Bara não tem pretensões a uma música universal – “esperanto hipotético que não existe” – no dizer de Mário de Andrade. Nara canta sem sotaques. Canta apenas o dia a dia, o sol a sol – o que já é muito, aqui pra nós.

Obs- Os erros ortográficos são do texto original, mantendo assim a transcrição fiel ao nível máximo.

 

O disco para resenha agora é o Vento de maio, de 67. Vamos lá!

Nara trouxe para este disco composições de diversos artistas brasileiros, como Chico Buarque, Vinicius de Moraes , Ary Barroso, Dorival Caymmi e Gilberto Gil. A capa, um grafite desenvolvido por Augusto Rodrigues hoje seria repudiada pelo Dória (piada sem graça, entendo).

Iniciando com uma trinca maravilhosa de Chico Buarque, Nara interpreta “Quem Te Viu, Quem Te Vê”, “Com Açúcar, Com Afeto” e “Noite Dos Mascarados”, um dueto ótimo com Gil. Maravilhosas interpretações com um destaque para a flauta de Com açúcar… Lindo casamento com a voz. Curiosidade, esta música veio a ser título de um disco seu lançado em 1980.

Seguindo com o título o disco, “Vento de Maio” de Gilberto Gil e Torquato Neto, é mais balançada, bem bossinha amena. Sim, dá impressão de praia essa música. “galopando na firmeza mais depressa vai chegar”.

“Maria Joana”, de Sidney Miller é um sambinha de terreiro. Maria Joana é o nome de uma entidade das matas nas encostas praianas. Lembrando também o trocadilho sobre a maconha, de uso bem comum entre os artistas da bossa nova nessa época. Nara segue com mais duas músicas de Miller, “A Praça” e “O Circo”, linda canção que entrou nas coletâneas infantis do fim dos anos 70.

Dorival Caymmi aparece interpretado com a canção “Morena do Mar”. Batida bem clássica do estilo da bossa nova. Ainda de maneira crescente, Rancho das Namoradas” de Vinicius de Moraes e Ary Barroso aparece com uma orquestração fantástica.

Em “Fui Bem Feliz” Nara inicia apenas a capela, com uma percussão de caixinha de fósforo, crescendo para um samba de roda. Seguida por “Chorinho” de Chico Buarque, Nara parece não respirar para cantar nesta música.

O disco encerra com “Passa, Passa, Gavião”. Melodia bem melancólica de início que muda com uma batida um tanto militar. Uma ótima crítica ao regime recém-instaurado no Brasil.

lion beerUm disco para sentar e ouvir em um momento de tranquilidade, para assim poder saborear sua voz e seus encantos. E claro, degustando uma ótima cerveja. Para este disco, indico a Lion Beer, nome autoexplicativo. Uma cerveja com um sabor diferente, feita no Sri Lanka. Uma larger que vai proporcionar momentos de leveza e um suave amargor. Da mesma forma que as interpretações de Nara.

Saúde!

 

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Pedro Cindio - Jornalista narigudo, músico frustrado e apaixonado por música, tenho um toc de só escutar discos completos. Cervejetariano e feio, mas meu humor salva a aparência.

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